| Os campos de batalha escolhidos pelo imperialismo contemporâneo |
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| News - Global | |||
| Sunday, 24 January 2010 14:12 | |||
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Condições para uma resposta eficiente por parte do Cone Sul Na arte da guerra, cada beligerante escolhe um ou mais campos de batalha que considera mais vantajoso para sua ofensiva e se impõe sobre o inimigo, confinando-o a uma posição defensiva. A mesma lógica é usada na política para as lutas nacionais ou geopolíticas.
Nos últimos trinta anos até a atualidade, as três potências do imperialismo global (EUA, Europa Ocidental e Japão) estabeleceram dois campos de batalha para a guerra sendo travada: “democracia” e “meio ambiente”. O presente trabalho buscará, primeiro, lançar luz sobre os conceitos e bases por trás de cada definição dos dois temas escolhidos pela tríplice potência, analisando-os de maneira crítica em comparação com os interesses dos Povos, Nações e Estados alvejados (países do Cone Sul e países do antigo leste europeu). Em seguido, serão analisados os vários instrumentos estratégicos usados pelo imperialismo para conduzir sua guerra: globalização “liberal” e sua ideologia (economia convencional), militarização da globalização, “boa governança”, “ajuda”, “guerra ao terrorismo”, guerras preventivas e seus discursos ideológicos associados (pós-modernismo culturalista). Em contrapartida, serão destacadas as condições para uma resposta eficaz por parte dos Povos e Estados do Cone Sul ao desafio imposto pela ofensiva de remanejamento da tríade imperialista. 1. “Democracia”, que “democracia”? Escolher a democracia como o campo de batalha para lançar uma ofensiva de desmantelamento da União Soviética e reconquista dos países do leste europeu foi um golpe de mestre da diplomacia da Aliança Atlântica. A ideia, que já vinha rondando desde a década de 1970, logo se materializou com a criação da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa – CSCE – e a assinatura do Ato Final Helsinki em 1975. Em seu livro (Le Piège, Helsinki et la chute du communisme; Odile Jacob 2005), Jacques Andreani explica como, depois do acordo, os soviéticos, que esperavam o desarmamento e uma trégua verdadeira da OTAN, foram simplesmente ludibriados por seus parceiros ocidentais (1). Não resta dúvida de que foi uma ideia brilhante, pois a “democracia” era uma questão real. Os regimes soviéticos, obviamente, não poderiam ser descritos como “democráticos”, independentemente da maneira que se defina o conceito e a prática. Por outro lado, os povos dos países da Aliança Atlântica se consideravam “democráticos”, sem levar em conta as debilidades e contradições de sua real prática política submetida às demandas da reprodução capitalista. Entretanto, a comparação dos sistemas sempre os favorecia. O conceito de “coexistência pacífica” dos soviéticos e seus aliados que implica “respeitar” as práticas políticas de ambos os lados e “não interferir” nas questões internas do outro foi gradualmente substituído pelo discurso democrático. A coexistência teve seus próprios créditos. Lembremos como o Apelo de Estocolmo, na década de 1950, relembrou os povos da real ameaça nuclear implícita nas escolhas diplomáticas agressivas dos EUA implementadas desde a Conferência de Potsdam (1945), que se confirmou com o bombardeio atômico do Japão após a Conferência. Entretanto, essa estratégia (coexistência e não interferência) parecia ser conveniente (ou eventualmente o era) para as potências dominantes do ocidente e do oriente. Esse discurso tornava a descrição “capitalista” e “socialista” real e natural, sem que a natureza exata dos dois sistemas fosse jamais de fato discutida. Ou seja, uma visão da natureza do capitalismo realmente existente (capitalismo oligopolista) ou “socialismo realmente existente” não era um problema. Em vez disso, a Organização das Nações Unidas substituiu (com aprovação implícita das potências de ambos os mundos) as palavras “capitalismo” e “socialismo” por “economias de mercado” e “economias de planejamento central” (ou mais maliciosamente “economias administradas”). Foram duas falsas descrições aparentemente corretas que facilitaram a enfatização da “convergência dos sistemas”, uma convergência que erroneamente se diz imposta pela tecnologia moderna (falso porque tem premissa num conceito tecnicista monístico de história), de forma a criar o espaço para a coexistência e criar uma convergência “natural”; e alternativamente, num contexto de guerra fria, ressaltar a oposição irredutível entre o modelo “democrático” (associado à economia de mercado aberto) e o modelo “totalitário” (produzido pela economia “administrada”). O posicionamento deliberado da luta no campo de batalha da “questão da democracia” vem confirmar a opção de “irredutibilidade” dos sistemas, no caso dos países do leste europeu não havia outra escolha, senão render-se e voltar ao capitalismo (o “mercado”) que era produzir então – naturalmente – as condições para a democratização. Se não era o caso (da Rússia pós URSS) ou era o caso somente em formas extremamente caricaturadas (nos casos das etnocracias dos países do leste europeu) é outra história. Vale a pena mencionar que o discurso “democrático” dos países da Aliança Atlântica é relativamente recente. Originalmente, a OTAN não teria se acomodado a Salazar, aos generais turcos e aos coronéis gregos? Nesse meio tempo, as diplomacias da tríade prestaram seu apoio (e com frequência instauraram) as piores ditaduras de todos os tempos na América do Sul, África e Ásia. Inicialmente, o novo discurso democrático foi recebido com muita relutância. Muitos líderes excepcionais da Aliança Atlântica o viam como inconveniente para sua “política real”. Foi preciso Carter como Presidente dos Estados Unidos (mais ou menos como Obama na atualidade) para entender que o sermão “moral” sobre o tema democrático podia ser entendido pelas pessoas. Foi só depois da chegada de Mitterrand ao poder na França que se abandonou a tradição galista de rejeitar qualquer “partição” da Europa imposta pela estratégia da guerra fria, sancionada pelos EUA. Foi preciso Gorbatchev na URSS para não entender que apoiar esse discurso poderia levar inevitavelmente ao desastre. Desde então se espera que o novo “discurso democrático” corresponda às expectativas. Parecia tão atrativo para as opiniões públicas “esquerdistas” na Europa que faziam campanha em seu apoio, inclusive a esquerda eleitoral (de partidos socialistas) e as opiniões originalmente mais radicais. Com o “euro-comunismo”, o consenso se tornou geral. Extraindo lições dessa vitória, as classes dominantes da tríade imperialista decidiram pela estratégia de centralizar o debate na “democracia”. Não se criticou a China por abrir sua economia, mas sim porque sua gestão política foi monopolizada pelo partido comunista. As vitórias de Cuba inéditas na América do Sul foram ignoradas, pondo em evidência, repetidas vezes, seu sistema de partido único. O mesmo discurso esteve presente mesmo em relação à Rússia de Putin. Será que as estratégias dele foram realmente pensadas para o prevalecimento da democracia? A resposta é um “não” bem redondo, salvo para quem for ingênuo demais. O único e exclusivo objetivo é obrigar os países resistentes a aceitar uma “economia de mercado” aberta e integrada ao tal do sistema liberal que na verdade é imperialista e reduzi-los ao estado de periferias dominadas no sistema. Uma vez alcançado, esse objetivo impede o avanço da democracia nos países vitimizados em questão, que não conseguem de forma alguma melhorar a resposta à “questão da democracia”. As chances de avanços democráticos no médio prazo se não imediatamente seriam melhores nos países que praticam pelo menos originalmente o “socialismo realmente existente” permitindo que a dialética da luta social se desenvolva por si só. O que teria aberto um prospecto viável para extrapolar os limites herdados do “socialismo realmente existente” (também distorcido por se unir, muito embora parcialmente, à abertura econômica liberal) e “sair do túnel”. Coincidentemente, a questão da “democracia” foi invocada somente contra países que resistem à proposta liberal globalizada. Os demais foram menos criticados por sua gestão política claramente autocrática. Exemplos perfeitos são a Arábia Saudita e o Paquistão. Embora a Geórgia (pró-Aliança Atlântica) também possa ser citada juntamente com muitos outros. No melhor dos casos, a fórmula “democrática” proposta não passa de uma caricatura de um “sistema multipartidário eleitoral” privado de preocupações com o progresso social, mas de novo e sempre – ou quase sempre – associado ao tipo de regressão social necessária e produzida pelo dominante capitalismo realmente existente (capitalismo oligopolista). A fórmula já rendeu muito estrago à credibilidade da democracia, pois os povos em atraso desistiram e preferem acreditar no retrógrado religioso e ilusões étnicas. Parece que agora é mais necessário do que nunca aumentar a crítica esquerdista radical (destaco radical para diferenciar do esquerdista confuso e da crítica vaga). Refiro-me ao tipo de crítica que associa em vez de desassociar a democratização das sociedades (e não só sua prática de gestão política) com o progresso social (numa perspectiva socialista). A crítica não pode desassociar a luta pela democratização da luta pelo socialismo. Não é possível ter socialismo sem democracia nem progresso democrático sem o prospecto socialista. 2. A questão ecológica e a pretensão de desenvolvimento sustentável. Aqui também é preciso começar com o problema real: o contínuo acúmulo capitalista levaria à destruição do meio ambiente natural e em última instância da vida no planeta. Essa questão também foi levantada na década de 1970, mais precisamente desde a Conferência de Estocolmo em 1972. Porém, por muito tempo, foi negligenciada e marginalizada em vários discursos dominantes e práticas de gestão econômica, até ser, muito recentemente, estabelecida como nova pauta central da estratégia dominante. Pouco tempo depois, o trabalho de Wackernagel e Rees (primeira publicação, 1996) instigou uma importante linha de pensamente social radical sobre a construção do futuro.(2) Os autores não definiram somente um novo conceito, o de uma marca ecológica. Também desenvolveram sua métrica, cujas unidades estão definidas em termos de “hectares globais”, comparando a capacidade biológica de sociedades/países (sua capacidade de produzir e reproduzir as condições para a vida no planeta) com seu consumo dos recursos disponibilizados por tal bio-capacidade. Os autores chegaram a conclusões alarmantes. No nível global, a bio-capacidade do nosso planeta é de 2,1 hectares globais (gha) per capita (isto é, 13,2 bilhões para 6,3 bilhões de habitantes). Entretanto, a média global de consumo em meados da década de 1990 já chegava a 2,7 gha. Essa “média” mascara um desequilíbrio gigantesco, pois a média da Tríade (Europa, América do Norte e Japão) já era quatro vezes maior do que a média global. Uma boa proporção da bio-capacidade das sociedades no Cone Sul são tomadas para vantagem desses centros. Ou seja, a atual expansão do capitalismo está destruindo o Planeta e a humanidade e a conclusão lógica dessa expansão é o genocídio dos povos do Cone Sul – como “super população” – ou pelo menos a manutenção duma pobreza que não pára de crescer. Uma linha de pensamento eco-fascista vem sendo desenvolvida para legitimar esse tipo de solução para o problema. O interesse deste trabalho vai para além dessas conclusões. Pois se trata de uma questão de cálculo (emprego o termo “cálculo” deliberadamente, em vez de “discurso”) em termos do valor usado dos recursos do Planeta, ilustrado através de sua medida em hectares globais (gha), não em dólares. O prova é portanto que o valor de uso social pode ser o sujeito de um cálculo perfeitamente racional. Essa prova é decisiva na sua importação, pois o socialismo é definido em termos de uma sociedade fundada no valor de uso e não no valor de intercâmbio. E os defensores do capitalismo sempre afirmaram que o socialismo é uma utopia porque – segundo eles – o valor de uso não era mensurável, a não ser que combinado com o valor de intercâmbio (definido em termos de “utilidade” em economia vulgar). Reconhecer o valor de uso (cuja medida de marcas econômicas é apenas um bom exemplo) implica que o socialismo deveria ser “ecológico”, de fato só pode ser ecológico, como proclama Alvater (“Socialismo solar” ou “não socialismo”). Mas também implica que esse reconhecimento é impossível em qualquer sistema capitalista, mesmo que seja “reformado”, como veremos. Marx, em sua época, não só suspeitou que esse problema existia. Já o havia expressado com sua rigorosa distinção entre o valor de uso e a riqueza, combinados na economia vulgar. Marx afirmou explicitamente que o acúmulo de capital destrói as bases naturais sobre a qual está construído: o homem (o trabalhador alienado, explorado, dominado e oprimido) e a terra (símbolo das riquezas naturais à disposição da humanidade). E seja qual forem as limitações dessa maneira de expressá-lo, embora datada, continua sendo uma ilustração da consciência clara do problema (para além da intuição) que merece ser reconhecida. É lamentável, portanto, que os ecologistas dos nossos tempos, inclusive Wackernagel e Rees, não tenham lido Marx. Pois lhes permitiria avançar nas suas próprias propostas, para compreender a importação revolucionária, e, claro, superar o próprio Marx no assunto. Essa deficiência na ecologia moderna facilita sua captura pela ideologia da economia vulgar de sua posição dominante na sociedade contemporânea. Essa captura já está acontecendo e está, de fato, consideravelmente avançada. A ecologia política (como a proposta por Alain Lipietz) desde o princípio foi posicionada no âmbito da esquerda “pró-socialista” e política. Subsequentemente, os movimentos “verdes” (e então os partidos políticos) se posicionaram na centro-esquerda, através do suporte expressado para com a justiça social e internacional, sua crítica do “lixo”, sua preocupação com o destino de trabalhadores e povos “pobres”. Porém, além da diversidade desses movimentos, devemos notar que nenhum deles tinha estabelecido uma relação rigorosa entre a dimensão socialista autêntica necessária para fazer frente ao desafio e um reconhecimento, não menos necessário, da dimensão ecológica. Para tanto, não devemos ignorar a distinção riqueza/valor originada por Marx. A captura da ecologia pela ideologia vulgar funciona em dois níveis: por um lado, reduzindo a medida do valor de uso para uma medida “melhorada” de valor de intercâmbio e, por outro lado, integrando o desafio ecológico com a ideologia de “consenso”. As duas manobras comprometem a clara compreensão de que a ecologia e o capitalismo são naturalmente opostos. Essa captura da medida ecológica pela economia vulgar vem crescendo a olhos vistos. Milhares de jovens pesquisadores, nos Estados Unidos, e, imitando-os, na Europa, foram mobilizados para essa caus. Os “custos ecológicos” são, nessa linha de pensamento, assimilados para economias externas. O método comum para medir custo/benefício em termos de valor de intercâmbio (o próprio combinado com o preço de mercado) é então usado para definir um “preço justo”, integrando economias externas e deseconomias. E o Bob é seu tio. Não há dúvidas de que o trabalho – reduzido a fórmulas matemáticas – feito nessa área tradicional da economia vulgar não diz como o “preço justo” calculado poderia se tornar aquele do mercado atual. Supõe-se então que “incentivos” vários, inclusive fiscal, poderiam ser eficazes o bastante para chegar a essa convergência. Muito embora não exista nenhuma prova desse fato. Na verdade, como já pode ser visto, os oligopólios se apoderaram da ecologia para justificar a abertura de novos campos para sua expansão destrutiva. François Houtart oferece uma ilustração conclusiva a respeito em seu trabalho sobre biocombustíveis (3). Desde então, o “capitalismo verde” tem feito parte do discurso obrigatório de homens/mulheres em posições de poder, da direita e da esquerda, da tríade (Europa, América do Norte e Japão) e dos executivos dos oligopólios. É evidente que a ecologia em questão se conforma com a visão conhecida como “sustentabilidade fraca” (no jargão comum), em outras palavras, a mercantilização dos “direitos de acesso aos recursos do planeta”. No relatório da comissão das Nações Unidas, esta presidida por Stiglitz, apresentado à Assembleia Geral das Nações Unidas de 24-26 de junho de 2009, ele abraça abertamente essa posição, propondo “um leilão dos recursos mundiais (direitos à pesca, licenças para poluir, etc.)”. Uma proposta que se resume simplesmente a sustentar os oligopólios em sua ambição de hipotecar ainda mais o futuro dos povos do Cone Sul. A captura do discurso ecológico pela cultura política do consenso (uma expressão necessária da concepção de capitalismo como final da história) se encontra bastante avançada. Essa captura tem um caminho fácil. Pois está respondendo à alienação e ilusão que alimenta a cultura dominante, a do capitalismo. Um caminho fácil porque essa cultura é verdadeira e tem uma posição dominante na mente da maioria dos seres humanos, no Cone Sul e também no Norte. Ao passo que a expressão das demandas da contracultura socialista trilha um caminho cheio de obstáculos. Porque a cultura socialista não está na nossa cara. Faz parte de um futuro a ser inventado, um projeto de civilização, aberto à criatividade da imaginação. Slogans (do tipo “socialização através da democracia e não através do mercado”; “a transferência do nível decisivo de tomada de decisão dos níveis econômicos e políticos para o da cultura”), não são suficientes, a despeito de seu poder de abrir caminho para um processo histórico de transformação. Para o que está em jogo é um longo processo “secular” de reconstrução da sociedade com base em princípios que não os do capitalismo, tanto no norte quanto no sul, que não se pode esperar que ocorram “rapidamente”. Porém a construção do futuro, apesar de distante, começa agora. 3. A economia convencional, um instrumento ideológico central a serviço da reprodução capitalista O discurso da economia convencional descreve o sistema atual como “economia de mercado”, mas como já indicamos acima não passa de uma definição incompleta e até mentirosa que pode ser invariavelmente usada para descrever a Inglaterra do século XIX, a China de Sung e Ming, as cidades do Renascimento italiano. A teoria da “economia de mercado” sempre foi a base do “economiquês”, usando a poderosa descrição que Marx inferiu de sua crítica radical. Essa teoria deixa de considerar imediata e completamente a realidade essencial – relações de produção social (principalmente a propriedade como expressão imediata dessas relações elevadas a princípio sacro) – e a substituiu pela sociedade hipotética formada por “indivíduos” (que se tornam, em última análise, agentes ativos de reprodução e desenvolvimento do sistema). Esses “indivíduos” (homo oeconomicus) não têm história, não passaram por nenhuma mudança desde a origem da raça humana (Robinson), foram caracterizados pelas mesmas qualidades imutáveis (egoísmo e habilidade para fazer cálculos e escolhas a seu próprio serviço). Com base nesses fundamentos, a “economia de mercado” portanto não corresponde a uma formulação estilizada do mundo do capitalismo histórico e real. Tem a ver com a construção de um sistema imaginário desprovido de quase todo o essencial que caracteriza a realidade capitalista. A crítica do Capital elucida a natureza ideológica (no sentido funcional) dessa construção pela economia vulgar desde Bastiat e Jean Baptiste Say. Sua função é simplesmente legitimar a atual ordem social instituindo-a como “ordem natural e racional”. Depois, as “teorias subjetivas de valor” e a teoria de equilíbrio econômico geral, desenvolvida em resposta a Marx no final do século XIX, e seu herdeiro tardio, isto é, a teoria econômica “expressa de maneira altamente matemática” descrita como clássica, neoclássica, liberal, neoliberal (não importa a descrição) nunca foram para além da estrutura definida pelos princípios fundamentais da economia vulgar. O discurso da economia vulgar sustenta as demandas de produção e reprodução do capitalismo realmente existente. O enaltecimento da “competição” é promovido no estágio central como condição indispensável para o “progresso”, uma qualidade negada pela solidariedade (a despeito dos testemunhos da história) que está confinada a uma definição excessivamente restrita como compaixão e caridade. Seja a competição entre “produtores” (produtores capitalistas, sem prestar muita atenção à forma oligopolista de produção capitalista contemporânea) ou mesmo entre “trabalhadores” (que implica que os desempregados, ou “pobres”, sejam responsáveis por essa situação), a nova nomenclatura (“parceiros sociais” em vez de classes em conflito), bem como as práticas – inter-alia do Tribunal da União Europeia, um defensor fervoroso do desmantelamento dos sindicatos considerados um obstáculo para a competição inter-trabalhadores) – estão apoiando a “competição” como uma exclusividade. Aqui também, adotar a exclusividade da competição como princípio é pedir à sociedade que faça campanha em torno da construção da sociedade do “consenso”, excluindo no processo qualquer tentativa de imaginar uma sociedade diferente fundada na solidariedade. A ideologia de sociedade do consenso que a Europa está por adotar elimina o potencial transformador de uma mensagem democrática. Passa a mensagem libertária direitista que considera – qualquer – Estado como “inimigo da liberdade” (ou seja o inimigo da empresa livre baseada no capital). Desassocia a prática da democracia do progresso social. 4. Para além da economia vulgar, os problemas reais do mundo contemporâneo A economia vulgar exclui de sua “análise” os problemas reais principais impostos pelo remanejamento do capitalismo histórico em seu esforço de conquistar o mundo; a natureza de algumas dessas questões será brevemente revisitada na seção abaixo. Capitalismo – um parêntese na história O princípio de acúmulo infinito que define o capitalismo é sinônimo de crescimento exponencial, que, como câncer, conduz à morte. Stuart Mill, que entendeu isso, imaginou que um “estado estacionário” poria um fim a esse processo irracional. Keynes compartilhou esse otimismo da Razão. Mas nenhum deles estava preparado para entender como a superação necessária do capitalismo poderia acontecer. Marx, ao dedicar-se exclusivamente à nova luta de classes, poderia, do contrário, imaginar a inversão do poder da classe capitalista, que está atualmente nas mãos da oligarquia. Acúmulo, que é sinônimo de empobrecimento, forma a estrutura objetiva da luta contra capitalismo. Que é, porém, principalmente expressa através do crescente contraste entre a riqueza das sociedades dominantes que se beneficiam do dividendo imperialista, e a pobreza das sociedades marginalizadas. Esse conflito se tornou o eixo central da escolha entre “socialismo ou barbarismo”. O capitalismo histórico “real e verdadeiro” está associado aos padrões sucessivos de acúmulo pela expropriação, não só na sua origem (“acúmulo primitivo”) mas em todos os estágios de sua manifestação. Uma vez estabelecido, o capitalismo “Atlântico” torna-se parte da conquista global, remodelando-a com base na expropriação permanente das áreas conquistadas, que, como resultado, tornaram-se as margens oprimidas do sistema. Essa globalização “vitoriosa” se provou incapaz de manter a sustentabilidade. Meio século depois de seu triunfo, que pareceu numa época ter iniciado o “fim da história”, foi questionada pela revolução na Rússia semi-marginalizada e nas lutas por liberação (vitoriosas) na Ásia e África que constituiu a história do século XX – a primeira onda de lutas pela emancipação de trabalhadores e povos, a primeira onda do “despertar do cone sul”. O acúmulo por meio da expropriação continua na nossa cara no finado capitalismo dos oligopólios contemporâneos. Nas áreas dominantes o dividendo monopolista do qual as plutocracias oligopolistas se beneficiam é sinônimo de expropriação de toda a base produtiva da sociedade. Nas áreas marginalizadas, essa expropriação empobrecedora se manifesta na expropriação camponesa e no confisco dos recursos naturais das regiões em questão. Ambas as práticas formam os pilares necessários para as estratégias de expansão do finado capitalismo dos oligopólios. Nessa análise, situo a “nova questão agrária” no centro do desafio para o século XXI (4). A expropriação camponesa (da Ásia, África e América Latina) é a principal forma contemporânea da tendência ao empobrecimento (no sentido que Marx deu essa “lei”) associado ao acúmulo. Sua busca é inextricável da domesticação do dividendo imperialista pelos oligopólios, com ou sem agrocarburantes. Deduzo, assim, que o desenvolvimento da luta nessa arena e as respostas futuras das sociedades camponesas no cone sul (que representam quase metade da humanidade) dependerá muito da capacidade ou dos trabalhadores e povos para trazer avanços ao longo da estrada para a construção de uma civilização genuína, liberta do domínio do capital, e que só posso chamar de socialismo. A pilhagem dos recursos naturais no cone sul exigida pela busca do modelo de consumo de desperdício para benefício exclusivo das sociedades ricas do norte, acaba com qualquer perspectiva de desenvolvimento merecedora do título para as pessoas em questão e forma o outro lado do empobrecimento numa escala global. Nessa análise, a “crise energética” não é o produto da escassez de recursos para a produção energética (petróleo, claro), nem o produto dos efeitos destrutivos dos modos devoradores de energia de produção e consumo atualmente em vigor. Essa descrição – muito precisa – não vai além da evidência imediata e óbvia. A crise é o produto do desejo coletivo dos oligopólios imperialistas para assegurar seu monopólio de acesso aos recursos naturais do planeta, por mais escassos que possam ser, de forma a apropriar-se do dividendo imperialista, continue o uso dos recursos nos patamares atuais (desperdício e devorador de energia) ou passe a respeitar as políticas “ecológicas” corretivas. Também deduzo que a busca de estratégias expansionistas pelo finado capitalismo dos oligopólios necessariamente colidirá com a crescente resistência das nações do cone sul. Sendo assim, a crise atual não se trata de uma crise financeira nem da soma de múltiplas crises sistêmicas, e sim de uma crise do capitalismo imperialista dos oligopólios, cujo poder supremo e exclusivo corre o risco de ser questionado, uma vez mais, pela luta conjunta das classes trabalhadoras e dos povos e nações oprimidos das periferias, por mais “emergentes” que possam parecer. É simultaneamente uma crise da hegemonia dos Estados Unidos. O capitalismo oligopolista, o poder político das oligarquias, a globalização feroz, a financialização, a hegemonia dos Estados Unidos, a militarização da gestão da globalização a serviço dos oligopólios, o declínio da democracia, a pilhagem dos recursos do planeta, o abandono da perspectiva de desenvolvimento do cone sul são inseparáveis. O real desafio é, portanto, o seguinte: será possível convergir essas lutas para abrir o caminho – ou os caminhos – na longa estrada para a transição ao socialismo global? Ou continuarão separados um do outro, ou até entrarão em conflito tornando-os ineficazes e deixando a iniciativa ao capitalismo oligopolista? De uma longa crise para a seguinte Os economistas convencionais de plantão que pregam a “globalização benigna” foram provavelmente pegos de surpresa pelo colapso financeiro de setembro de 2008, que também estarreceu aos criadores do discurso liberal coroados com triunfos desde a “queda do muro de Berlim”, como costumamos dizer. Entretanto, para nós o ocorrido não foi uma surpresa – o estávamos esperando (sem saber a data exata, à moda de Madame Soleil (uma famosa astróloga) – simplesmente porque para nós seria o desdobramento natural da longa crise do finado capitalismo instaurado na década de 1970. Olhar para trás e analisar a primeira longa crise do capitalismo, que formou o século XX, é positivo, pois é possível traçar um surpreendente paralelo entre os estágios de desenvolvimento das duas crises. O triunfante capitalismo industrial do século XIX estava em crise de 1873. Os lucros despencaram, por razões que Marx deixou claras. O capital reagiu com um duplo movimento – tornando-se mais concentrado e se expandindo globalmente. Novos monopólios se apoderaram dos lucros ao valor mais alto possível, derivado da exploração da mão de obra. Aceleraram a conquista colonial do planeta. Essas transformações estruturais permitiram que os lucros voltassem a decolar. Levaram à “Belle Époque” – de 1890 a 1914 – um período de domínio global por parte do capital dos monopólios financializados. O discurso dominante da época enaltecia a colonização (a “missão civilizatória”) fazendo com que a globalização fosse sinônimo de paz, um discurso para o qual a democracia social europeia da classe trabalhadora fazia campanha. No entanto, a “Belle Époque”, anunciada como o “fim da história” pelos ideólogos proeminentes da época, culminou na guerra mundial, como somente Lênin tinha previsto. E o período que segue até e depois da segunda guerra mundial foi de “guerras e revoluções”. Em 1920, a revolução russa (o “elo fraco” no sistema”) ao haver sido isolada depois da derrota de esperanças pela revolução na Europa central, financializou o capital monopolista restaurado, contra a corrente, do sistema da “Belle Époque”. Essa restauração, que foi denunciada por Keynes na época, foi a origem do colapso financeiro de 1929 e a depressão estabelecida até a segunda guerra mundial. O “longo século XX” – 1873/1990 – é portanto o século que iniciou a primeira crise profunda sistemática do finado capitalismo (a ponto de que Lênin pensou que esse capital monopolista constituía a “fase final do capitalismo”, e também o século de uma primeira onda triunfante de revoluções anti-capitalistas (Rússia, China) e de movimentos anti-imperialistas por parte de povos da Ásia e da África. A segunda crise sistêmica do capitalismo começou em 1971, quase exatamente um século depois da primeira, quando o dólar saiu do padrão ouro. Os níveis de lucro, investimento e crescimento colapsaram (para nunca voltar a seus níveis anteriores entre 1956 e 1975. O capital respondeu ao desafio como na crise anterior, com um duplo movimento para concentração e para globalização. Também estabeleceu estruturas para definir a segunda “Belle Epoque” (1990/2008) de globalização financializada, permitindo que grupos oligopolistas tivessem seu dividendo monopolista. O mesmo discurso acompanhou esses movimentos: o “mercado” garante prosperidade, democracia e paz; esse é o “fim da história”. A mesma campanha de socialistas europeus para o novo liberalismo. Entretanto, essa nova “Belle Epoque” veio acompanhada desde o princípio pela guerra, do norte contra o sul, a partir da década de 1990. E como a primeira globalização financializada conduziu a 1929, a segunda levou a 2008. Chegamos agora ao momento crucial que anuncia uma provável nova onda de “guerras e revoluções”. Tudo a despeito do fato de que as potências não pretendem nada além que a restauração do sistema para como era antes do colapso financeiro. A analogia entre os desdobramentos dessas duas longas crises sistêmicas do finado capitalismo é surpreendente. No entanto, há diferenças de importação política significativa. Emergir da crise do capitalismo ou emergir do capitalismo em crise? Por trás da crise financeira existe a crise sistêmica do capitalismo dos oligopólios. O capitalismo contemporâneo é antes de mais nada um capitalismo oligopolista em todos os sentidos (que era parcial até o presente). Com isso quero dizer que os oligopólios são o único controle da reprodução do sistema produtivo como um todo. São “financializados” no sentido que somente eles têm acesso aos mercados de capital. Essa financialização dá ao mercado monetário e financeiro – o mercado deles, isto é, aquele dentro do qual eles competem entre eles – o status de mercado dominante, que molda e controla, por sua vez, os mercados de mão de obra e intercâmbio de mercadorias. Essa financialização globalizada é expressa com uma transformação da classe dominante burguesa, que se transformou numa plutocracia acionista. As oligarquias não são só russas, como se diz em geral, mas mais importantes americanas, europeias e japonesas. Um declínio na democracia é o resultado inevitável dessa concentração de poder para a exclusiva vantagem dos oligopólios. A nova forma de globalização capitalista, que corresponde a essa transformação, em contraste com a que caracterizou a primeira “Belle Epoque”, é igualmente importante de se analisar. Expressei isso em uma frase: a transição do imperialismo conjugado no plural (isto é, o das potências imperialistas em permanente conflito entre si) para o imperialismo coletivo da tríade (Estados Unidos, Europa e Japão). Os monopólios que emergiram em resposta à primeira crise de níveis de lucro se baseavam na reafirmação da competição violenta entre as principais potências políticas da época, levando a um grande conflito armado que se iniciou em 1914 e seguiu, por força do Tratado de Versailles, com a segunda guerra até 1945, que foi chamado por Arrie, Frank, Wallerstein e eu mesmo desde a década de 1970 de “Trinta anos de guerra”, um termo que passou a ser empregado por outros. Entretanto, a segunda onda da concentração oligopolista, iniciada na década de 1970, tinha uma base completamente diferente, no contexto do sistema que chamei de “imperialismo coletivo” da tríade (Estados Unidos, Europa e Japão). Essa nova globalização imperialista, o domínio das grandes potências deixou de ser exercido através do monopólio da produção industrial (como o foi anteriormente), sendo exercido por outros meios (controle da tecnologia, mercados financeiros, acesso aos recursos naturais do planeta, informação e comunicação e armas de destruição em massa). O sistema que descrevo como “apartheid em escala global” implica uma guerra permanente entre os Estados e os povos das periferias recalcitrantes, iniciada na década de 1990 com o estabelecimento do controle militar do planeta pelos Estados Unidos e seus aliados subordinados na OTAN. Na minha análise, a financialização do sistema é inseparável de seu confirmado caráter oligopolista. Existe uma relação orgânica fundamental entre os dois. Esse não é o ponto de vista prevalecente, não só na extensa literatura dos economistas convencionais, mas também na maioria da literatura crítica sobre a crise atual. É todo um sistema que está agora em dificuldades. Os fatos estão estabelecidos: a crise financeira já está em curso de produzir, não uma recessão “, mas sim uma verdadeira depressão profunda. Mas, além disso, outras dimensões da crise do sistema foram reveladas para conscientização pública antes mesmo do colapso financeiro. Sabemos que os grandes rótulos – a crise energética, crise alimentar, crise ecológica, as alterações climáticas – e várias análises desses aspectos das dificuldades atuais são produzidas diariamente, algumas da melhor qualidade. Porém, continuo a crítica em relação a este tipo de tratamento da crise sistêmica do capitalismo, que mantém muito distinta as diferentes dimensões do problema. Redefino as diversas “crises” como facetas do mesmo problema, o da globalização capitalista contemporânea (liberal ou não) com base na perda de recursos para que o dividendo imperialista funcione, em escala global, a favor da plutocracia oligopolista do imperialismo coletivo da tríade. A verdadeira batalha está sendo travada no terreno decisivo entre os oligopólios, que buscam produzir e reproduzir as condições que lhes rendam o dividendo imperialista – e todas as suas vítimas – os trabalhadores em todos os países do norte e do sul, oprimidos , as pessoas marginalizadas condenadas a abandonar todas as esperanças de desenvolvimento real. Emergir da crise do capitalismo ou emergir do capitalismo em crise? Esse slogan foi proposto por mim e André Gunder Frank em 1974. A análise que propomos da nova grande crise que acreditávamos ter se iniciado nos levou à conclusão principal de que o capital iria responder ao desafio com uma nova onda de concentração, procedendo, assim, a uma realocação maciça. Os desdobramentos posteriores confirmaram amplamente essa tese. O título da nossa intervenção num colóquio organizado pela Il Manifesto em Roma, na mesma data ( “Não esperemos 1984″, em referência à obra de George Orwell revisitada para a ocasião) convidou a esquerda radical do período a parar de ajudar o capital, procurando “formas de sair da crise”, mas para começar a aplicar estratégias para “formas de sair do capitalismo em crise” (5) Cismei com essa linha de análise e não me arrependo. Pois pude conceitualizar novas formas de domínio por parte das potências imperialistas, com base em novos modelos de controle para substituir o monopólio da indústria, confirmadas pela ascensão dos países rotulados como “emergentes”. Chamei a construção dessa nova globalização de “apartheid em escala global”, apontando para a gestão militarizada do planeta, perpetuando sob novas condições a polarização inseparável da expansão do “capitalismo como realmente existe”. A segunda onda de emancipação popular: será um remake do século XX ou melhor? Não há alternativa ao jeito socialista O mundo contemporâneo é regido pelas oligarquias. As oligarquias financeiras dos Estados Unidos, Europa e Japão, que dominam não só a vida econômica, mas também a política da vida cotidiana. As oligarquias russo fundidas em sua imagem que o Estado russo tenta controlar. O Estado rege a China. As autocracias (por vezes ocultadas pela aparente democracia eleitoral “de baixa intensidade”) que fazem parte do sistema global no resto do planeta. A gestão da globalização contemporânea pelas oligarquias está em crise. As oligarquias do norte estão confiantes de que permanecerão no poder uma vez passada a crise. Não se sentem ameaçadas. Ao passo que é muito clara a fragilidade do poder autocrático do cone sul. É por isso que a globalização atual é em si frágil. Será que vai ser ameaçada pela revolta do cone sul como no século anterior? Provavelmente. Mas, infelizmente. Para a humanidade só vai tomar o caminho socialista – a única alternativa ao caos humano – quando os poderes oligárquicos, seus aliados e servos foram derrotados nos países do norte e do sul.. Viva o internacionalismo dos povos frente ao cosmopolitismo das oligarquias. Será que o capitalismo dos oligopólios financializados e globalizados pode ser restabelecido? O capitalismo é “liberal” por natureza, se por “liberalismo” não se entender o adjetivo benigno que o termo tem suscitado, mas o total e completo domínio pelo capital, não só do trabalho e da economia, mas de todos os aspectos da vida social . Não existe “economia de mercado” (termo vulgar para capitalismo) sem uma “sociedade de mercado”. O capital não deixa de buscar seu único objetivo: dinheiro. O acúmulo pelo acúmulo. Marx e outros pensadores críticos, como Keynes, compreenderam isso perfeitamente. Mas não os nossos economistas convencionais, incluindo os de esquerda. Esse modelo de dominação exclusiva e total do capital foi obstinadamente imposto pelas classes dominantes durante todo o período que precedeu a crise de 1945. Foi só a tríplice vitória da democracia, do socialismo e da libertação nacional-popular que tornou possível, de 1945 a 1980, a substituição desse modelo permanente do ideal capitalista pela coexistência conflituosa dos três modelos sociais do governo do Estado do Bem-estar da democracia ocidental, o socialismo real do oriente e os nacionalismos populares do cone sul. A perda de ímpeto seguido pelo colapso dos três últimos modelos tornaram possível um retorno ao domínio exclusivo do capital, conhecido como neoliberalismo. Associei esse novo “liberalismo” com um conjunto de características que considero que merecem a denominação de “capitalismo senil”. O título deste livro, publicado em 2001, provavelmente uma das raras publicações da época, que, longe de ver o “fim da história” no neoliberalismo globalizado e financializado, analisou o sistema do finado capitalismo como instável e fadado ao colapso, precisamente devido à sua dimensão financializada (seu “calcanhar de Aquiles”, como diziam). Os economistas convencionais permaneceram obstinadamente surdos a qualquer questionamento de seus dogmas. Ao ponto de serem incapazes de prever o colapso financeiro de 2008; eram apresentados pela mídia dominante como “críticos”, porém não mereciam esse título. Stiglitz continua convencido de que o sistema como está – o liberalismo globalizado e financializado – pode ser recuperado com alguns poucos ajustes. Amartya Sen extrai uma moral sem se atrever a reconhecer a forma atual do capitalismo pelo que de fato é. As catástrofes sociais trazidas pela instituição do liberalismo – “Utopia permanente do capital”, como eu dizia – deram origem à nostalgia do passado recente e distante. Mas essa nostalgia não nos dá uma resposta ao desafio. Pois é o produto de um empobrecimento da teoria crítica que gradualmente veio a dificultar a compreensão das contradições internas e das limitações sistêmicas do período pós-guerra, cujo declínio, falta de direção e colapso final surgiram como cataclismos imprevistos. No entanto, no vácuo criado por estas falhas no pensamento crítico, o caminho foi pavimentado para uma consciência de novas dimensões da crise sistêmica da civilização. Refiro-me aqui aos ecologistas. Mas os Verdes, que afirmavam ser radicalmente distinto dos Azuis (conservadores e liberais) e dos Vermelhos (socialistas) criaram um impasse para si mesmos, devido à sua incapacidade de integrar os aspectos ecológicos do desafio com uma crítica radical do capitalismo. Tudo estava pronto para o triunfo – efêmero, embora vivenciado como “definitivo” – da alternativa conhecida como “democracia liberal”. Um pensamento patético – na verdade, nem era um pensamento – que ignora a intervenção decisiva de Marx sobre o tipo de democracia burguesa, que não percebe que aqueles que tomam as decisões não são os mesmos que por elas são afetados. Os que tomam as decisões atualmente, gozando de liberdade reforçada pelo controle sobre a propriedade, são os plutocratas do capitalismo oligopolista e os Estados que são seus devedores. Do jeito que vão as coisas, os trabalhadores e as populações afetadas não passam de meras vítimas. Mas tal absurdo poderia realmente parecer crível por um curto período de tempo, por causa das falhas sistêmicas do período pós-guerra, cujas origens não foram compreendidas pelos patéticos dogmáticos. A democracia liberal conseguiu, portanto, se vender como o melhor “de todos os sistemas possíveis”. Hoje, os poderes constituídos, que não tinham previsto nada, estão ocupados restaurando o próprio sistema. Sua grande conquista, como a dos conservadores na década de 1920 – denunciada por Keynes, sem qualquer apoio na época – só pode agravar as contradições que são a base do colapso financeiro de 2008. Não menos grave é o fato de que os economistas “de esquerda” assumiram por muito tempo os preceitos básicos da economia vulgar e aceitaram a (errônea) ideia da racionalidade dos mercados. Esses economistas concentraram seus esforços na definição das condições para essa racionalidade, abandonando Marx, por ser “obsoleta” sua descoberta da irracionalidade dos mercados a partir da perspectiva da emancipação dos trabalhadores e dos povos. Na perspectiva desses economistas, o capitalismo é flexível, ajustando-se às exigências do progresso (tanto tecnológicas quanto sociais), se preciso for. Esses economistas “esquerdistas” não estavam em condições de compreender a inevitabilidade da crise que eclodiu. Estavam ainda menos preparados para enfrentar os desafios que os povos enfrentam como resultado. Assim como outros economistas, tentaram reparar o dano sem compreender que, para tanto, era necessário tomar um novo caminho que superasse a lógica fundamental do capitalismo. Em vez de procurar a emergência do capitalismo em crise, eles acham que podem sair da crise do capitalismo. A crise da hegemonia dos Estados Unidos A recente reunião do G20 (Londres, abril de 2009) não apresentou nenhuma proposta para a “reconstrução do mundo”. E não foi por acaso que logo em seguida foi realizada a reunião da OTAN, o braço armado do imperialismo contemporâneo, juntamente com o reforço do seu envolvimento militar no Afeganistão. A guerra permanente do “Norte” contra o “Sul” tem de continuar. Já sabíamos que os governos da tríade – Estados Unidos, Europa e Japão – buscavam o objetivo único de restauração do sistema como era antes de setembro de 2008, e não devemos levar a sério as intervenções do presidente Obama e Gordon Brown, por um lado, e de Nicolas Sarkozy e Angela Merkel, por outro, todas jogando para a galeria. As supostas “diferenças” entre eles, destacadas pela mídia, sem qualquer substância real, são nada mais que uma tentativa por parte dos dirigentes para dar peso às suas opiniões ingênuas. “Restabelecimento do capitalismo”, “a reforma do sector financeiro”: lindas palavras para evitar as verdadeiras questões. É por isso que a restauração do sistema, que não é impossível, não vai resolver nenhum problema, e sim agravá-los. A “Comissão Stiglitz”, instituída pela Organização das Nações Unidas, se inscreveu para esta estratégia de construção de uma ilusão de ótica. Não se poderia esperar outra coisa da oligarquia que detém o poder real ou de seus devedores político. O ponto de vista que elaborei, destacando as relações entre a dominação dos oligopólios e a financialização necessárias para a gestão da economia global – inseparáveis – se confirma com os resultados do G20. Ainda mais interessante é o fato de que os líderes convidados dos países “emergentes” mantiveram seu silêncio. Apenas uma frase inteligente foi proferida, durante o decorrer desse circo, pelo presidente chinês, Hu Jintao, que observou “en passant”, sem destaque e com um (sarcástico?) sorriso, que devemos prever a criação de um sistema financeiro global que não esteja fundado no dólar. Alguns poucos comentaristas imediatamente fizeram a ligação – correta – com as propostas de Keynes de 1945. Esta “observação” nos traz de volta à realidade: de que a crise do sistema capitalista dos oligopólios é inseparável da crise da hegemonia norte-americana, em seu último suspiro. Mas quem vai assumir? Com certeza não será a “Europa” que não existe para além da área do Tratado do Atlântico e que não aspira à independência, como a reunião da OTAN mais uma vez demonstrou. China? A “ameaça” invocada pela mídia ad nauseam (um novo “perigo amarelo”), sem dúvida, a fim de legitimar o alinhamento do Atlântico, é infundada. Os dirigentes chineses sabem que seu país não dispõe dos meios e que eles próprios não têm a vontade. A estratégia da China é trabalhar para a promoção de uma nova globalização sem hegemonia. Que nem os Estados Unidos nem a Europa consideram aceitável. Portanto, as chances de um possível avanço nesse sentido fica plenamente com os países do cone sul. E não é por acaso que a UNCTAD é a única instituição no seio da família das Nações Unidas a tomar iniciativas muito diferentes das da Comissão Stiglitz. Não é por acaso que o seu diretor, o tailandês Supachai Panitchpakdi Supachi, considerado até agora um liberal perfeito, se atreveu a propor no relatório da organização, “The Global Economic Crisis”, datado de Março de 2009, avanços realistas alinhados com a perspectiva de um segundo momento “do despertar do cone sul”. Por sua vez, a China iniciou a construção – gradual e controlada – de sistemas financeiros regionais alternativos não atrelados ao dólar. Essas iniciativas selaram, no nível econômico, a promoção de alianças políticas entre o “Grupo de Xangai”, o principal obstáculo dos beligerantes da OTAN. A Assembleia da OTAN se reunião ao mesmo tempo em abril de 2009, ratificando a decisão de Washington não de dar início à sua retirada militar, mas sim de aumentar sua presença militar, sob o pretexto falacioso da luta contra o “terrorismo”. O presidente Obama está sem dúvida usando seu talento para tentar salvar o programa do Clinton seguido pelo do Bush para o controle militar do planeta, o único meio de prolongar a existência da ameaçada hegemonia norte-americana. Obama marcou pontos e obteve a capitulação incondicional da França de Sarkozy – o fim do gaullismo – que reintegrou o comando militar da OTAN, sempre difícil durante o período em que a voz de Washington era a de Bush, a quem lhe faltava inteligência e sobrava arrogância. Além disso, Obama, como Bush, se pôs a discursar, com pouco respeito pela “independência” da Europa, quando convidado a aceitar a integração da Turquia na União Europeia! Rumo a uma segunda onda de lutas vitoriosas para a emancipação dos trabalhadores e dos povos. São possíveis novos avanços na luta pela emancipação dos povos? A gestão política da dominação global do capital oligopolista é necessariamente muito violenta. Pois, a fim de manter suas posições como sociedades ricas, a tríade imperialista é obrigada a reservar, para seu próprio benefício, exclusivamente, o acesso aos recursos naturais do planeta. Essa nova exigência está na base da militarização da globalização, que chamo de “Império do Caos” (título de um dos meus trabalhos, publicado em 2001), uma expressão também usada por outros, desde então. Após a empreitada de Washington para obter o controle militar do planeta e realizar para tanto “guerras preventivas”, sob o pretexto de uma “luta contra o terrorismo”, a OTAN se deu o título de “representante da comunidade internacional” e, ao fazê-lo, marginalizou a ONU, a única organização com o direito de falar com esse tipo de atribuição. Naturalmente, os verdadeiros objetivos não puderam ser identificados. Para dissimulá-los, as potências em questão decidiram instrumentalizar o discurso da democracia e se concederam o “direito de intervenção” para impor “respeito aos direitos humanos”! Paralelamente, o poder absoluto das novas plutocracias oligárquicas vem minando o conteúdo da prática da democracia burguesa. Considerando que a governança em outras épocas demandavam negociação política entre as diferentes classes nas sociedades que compõem o bloco hegemônico necessário para a reprodução do poder do capital, a nova administração política da sociedade sob o capitalismo dos oligopólios, iniciado com a despolitização sistemática, instituiu uma nova cultura política do “consenso” (o modelo dos Estados Unidos), que substitui os consumidores e espectadores políticos por cidadãos ativos, a base da democracia autêntica. Este vírus “liberal” (para usar o título de um trabalho meu publicado em 2005) aboliu a possibilidade de escolhas alternativas e substituiu um consenso baseado somente no respeito pela democracia eleitoral processual. A origem desse drama é o estrangulamento seguido pela destruição dos três modelos de governança social evocados acima. Viramos a página sobre da primeira onda de lutas pela emancipação, mas ainda não abrimos o livro da segunda onda. No crepúsculo que os separa está a “era dos monstros”, como escreveu Gramsci. No Norte, estes desdobramentos dão origem à perda de sentido da prática democrática. Tal retrocesso é mascarado pelas reivindicações do discurso conhecido como “pós-modernista”, que diz que as nações e classes já deixaram o palco para ceder lugar ao “indivíduo” que se tornou o sujeito ativo de transformação social. No Sul, outras ilusões dominam o palco. Seja a ilusão de um desenvolvimento nacional autônomo capitalista, inscrito na globalização, que reina entre os dominantes e as classes médias de países “emergentes”, empolgados com o sucesso imediato das últimas décadas. Ou ilusões retrógradas (quase étnicas ou religiosas) nos países que têm de se defender sós. Mais grave é o fato de que tais desenvolvimentos dão conforto para a adesão geral à “ideologia do consumismo”, a ideia de que o progresso é medido pelo crescimento quantitativo do consumismo. Marx mostrou que é o meio de produção que determina o consumo e não o contrário, como afirma a economia vulgar. A perspectiva de uma racionalidade superior humanista, a fundação do projeto socialista está, portanto, perdida de vista. O potencial gigantesco que a aplicação da ciência e da tecnologia oferece a toda a humanidade, e que deveria permitir a verdadeira prosperidade dos indivíduos e das sociedades, no Norte e no Sul, é desperdiçado diante das exigências da sua submissão à lógica da busca interminável de acúmulo de capital. Ainda mais grave é que o progresso contínuo da produtividade social do trabalho está associado com um escalonamento de uso dos mecanismos de empobrecimento (visível em escala global, entre outros, pela ofensiva geral contra as sociedades camponesas), como havia entendido Marx. A adesão à alienação ideológica produzida pelo capitalismo, não apenas atrai as sociedades opulentas das potências imperialistas. Os povos das periferias, totalmente desprovidos de acesso aos níveis aceitáveis de consumo e cego por aspirações de consumo como no cone norte, perdem de vista o fato de que a lógica do desenvolvimento histórico do capitalismo impossibilita a existência do modelo em questão por todo o planeta. Podemos compreender, então, que as razões que levaram ao colapso financeiro de 2008 eram resultado exclusivo das claras contradições internas do acúmulo de capital. Apenas a intervenção de forças que ofereçam uma alternativa positiva que nos possibilite imaginar uma saída do caos criado pela intensificação das contradições internas do sistema (foi nesse sentido que me opus ao “caminho revolucionário” para o modelo de contornar um sistema que se tornou historicamente obsoleto pela “decadência”) (7). E, na conjuntura atual, os movimentos de protesto social, apesar de seu aparente aumento, continuam sendo incapazes de desafiar a ordem social associada ao capitalismo dos oligopólios, pois lhes falta um projeto político coerente para fazer frente à ameaça. Dessa perspectiva, a situação atual é muito diferente da dos anos 1930, quando as forças do socialismo, por um lado, e do fascismo, por outro, se confrontavam, este produzindo a resposta nazista e aquele, o New Deal e as Frentes Populares. O agravamento da crise não pode ser evitado, mesmo que se suponha o restabelecimento – que não é impossível – do domínio do capital oligopolista. Nessas condições, a radicalização das lutas pode não ser impossível, ainda que existam obstáculos consideráveis. Nos países da “tríade” [Estados Unidos, Europa e Japão], essa radicalização demandaria que a desapropriação dos oligopólios fizesse parte da ordem do dia, algo que parece impossível num futuro previsível. Consequentemente, a teoria de que, apesar da turbulência provocada pela crise, a estabilidade dos países da tríade não foi abalada, não deve ser descartada. O risco de um “remake” da onda de lutas de emancipação do século passado, isto é, um desafio para o sistema confinado à periferia é grave. A segunda etapa do “despertar do cone sul” (para voltar a usar o título de meu trabalho de 2007, uma leitura do período de Bandung como o tempo de despertar) está na ordem do dia. Na melhor das hipóteses, os avanços obtidos nessas condições poderia forçar o imperialismo a recuar e abrir mão de seu projeto insano e criminoso de controle militar do planeta. E, nessa hipótese o movimento democrático nos países do dominante poderia fazer uma contribuição positiva para o sucesso do processo de esterilização. Além disso, o recuo do dividendo imperialista, do qual se beneficiam as sociedades em questão, alcançado com o reequilíbrio internacional em prol do cone sul (e da China, em particular) poderia muito bem ajudar a despertar uma consciência socialista. Mas por outro lado, as sociedades do cone sul poderiam ter de enfrentar os mesmos desafios do passado, levando às mesmas limitações em seu avanço. Um novo internacionalismo dos trabalhadores e dos povos é necessário e possível. O capitalismo histórico está longe de ser duradouro. É apenas um breve parêntese na história. Um desafio fundamental – que os nossos pensadores contemporâneos, em geral, nem imaginam ser “possível” ou “desejável” – mas que não deixa de ser condição necessária para a emancipação dos trabalhadores e povos oprimidos (isto é, 80% da humanidade deixada às margens). E as duas dimensões do desafio são inseparáveis. Não haverá saída do capitalismo somente pela força da luta dos povos do Norte ou somente dos povos oprimidos do Sul. Existe apenas uma saída do capitalismo, quando essas duas dimensões do mesmo desafio se alinharem uma com a outra. A probabilidade de que aconteça não é “grande”, nesse caso o capitalismo será “ultrapassado” pela destruição da civilização (para além da doença da civilização, para usar os termos de Freud) e, talvez, da vida no Planeta. O cenário de um possível “remake” do século XX permanece dentro dos limites das exigências para um envolvimento da humanidade no longo caminho de transição para o socialismo mundial. O desastre liberal exige uma renovação da crítica radical do capitalismo. O desafio é uma permanente construção / reconstrução do internacionalismo dos trabalhadores e dos povos, frente ao cosmopolitismo do capital oligárquico. A construção desse internacionalismo só pode ser concebida com novos e bem sucedidos avanços revolucionários (como os iniciados na América Latina e no Nepal) que oferecem a perspectiva de superar o capitalismo. Nos países do cone sul, a luta dos Estados e das nações por uma globalização negociada sem hegemonias – a forma contemporânea de desconexão – mantida por meio da organização da demanda da classe trabalhadora pode restringir e limitar as potências oligopolistas da tríade imperialista. As forças democráticas nos países do Norte devem apoiar essa luta. O “discurso” democrático a ser proposto e aceitado pela maioria da esquerda, tal como são as intervenções “humanitárias” realizadas em seu nome como também as práticas horríveis de “ajuda”, descarta qualquer confronto real a esse desafio. Nos países do Norte, os oligopólios já fazem parte da “propriedade comunitária”, cuja gestão não pode limitar-se somente a interesses especiais (cuja crise se provou catastrófica). Uma esquerda autêntica precisa ter a coragem de conceber a estatização, a primeira fase inevitável para sua socialização pelo aprofundamento da prática democrática. A crise atual nos permite conceber uma possível frente integrada das forças sociais e políticas que reúne todas as vítimas da competência exclusiva das oligarquias atuais. A primeira onda de lutas para o socialismo, a do século XX, expôs as limitações das democracias sociais europeias, os comunismos da Terceira Internacional e os nacionalismos populares da era Bandung, a repressão e aniquilação de suas ambições socialistas. A segunda onda, a do século XXI, deve aprender as lições. Em particular, a associação de socialização com a gestão econômica e do aumento da democratização da sociedade. Não haverá socialismo com democracia, mas também não haverá avanço democrático fora de uma perspectiva socialista. Esses objetivo estratégicos convidam-nos a considerar a construção de “convergência na diversidade” (para usar a expressão do Fórum Mundial de Alternativas) de formas de organização e as lutas das classes oprimidas e exploradas. E não pretendo condenar por antecipação qualquer uma dessas formas que, em sua própria maneira, pode renovar as relações com a democracia social, o comunismo ou o nacionalismo popular, ou pode se distanciar de qualquer um desses. A partir dessa perspectiva, acredito que seja necessário refletir sobre a renovação de um marxismo criativo. Marx nunca foi tão útil ou necessário para compreender e transformar o mundo, atualmente mais do que nunca. Ser marxista nessa caso é começar com Marx e não terminar com ele ou Lênin ou Mao, como os marxismos históricos do século anterior conceberam e puseram em prática. Trata-se de dar a Marx o que lhe pertence: a inteligência de ter começado uma forma moderna de pensamento crítico, uma crítica da realidade capitalista e de suas representações políticas, ideológicas e culturais. O marxismo criativo deve ter o objetivo de enriquecer sem hesitação essa forma de pensamento crítico por excelência. Não devemos ter medo de integrar os resultados da reflexão em todos o níveis, incluindo as contribuições que foram indevidamente consideradas “alienígenas” pelos dogmas do marxismo histórico do passado. Conclusão: a impotência da economia vulgar Em tempos de “crise” como os nossos, a impotência da economia vulgar é patente. Nesse contexto, o jornal Le Monde lançou uma pergunta capciosa: “Como é que os “craques” da Harvard não puderam prever a crise …?” Será que eles são um bando de retardados, então? Com certeza não. Mas a inteligência deles está totalmente comprometida com os caminhos ditados pela economia vulgar e a falsa teoria de um “capitalismo imaginário de mercados generalizados”. Da mesma forma que algumas mentes inteligentes do passado acreditavam que discutir o sexo do anjos poderia ajudar a melhor compreender o mundo! Envolvido em formas de análise dos mercados, com base em “informação imperfeita”, a economia vulgar é então obrigada a substituir a análise da realidade capitalista por um conjunto interminável de hipóteses (para as quais a matemática se tornou essencial) em “antecipações”. Porém as antecipações podem fazer com que se preveja tudo e nada, coisa que Keynes com a sua mente inteligente e realista tinha compreendido. Quais são essas “antecipações”? E de quem? Isso é tudo blábláblá. Será que são antecipações pelos vendedores da força de trabalho? Esses pobres homens sabem que não têm escolha. Eles também sabem que a única maneira para melhorar as condições de venda de sua força de trabalho é através da organização e da luta coletiva de classes. São eles os dos “consumidores” que podem “escolher”(seu “supermercado”?) e suas possíveis aplicações financeiras? Essas pobres almas, finalmente, têm de procurar o conselho dos banqueiros que são os que realmente decidem. São eles os dos industriais, que podem decidir se querem ou não investir? A história demonstrou que Marx e Keynes tinham entendido que os ciclos de investimento excessivo e desvalorização do capital criam realidade. São eles os donos do capital que podem escolher entre investimento de risco e a preferência por liquidez? Bolha financeira é uma realidade recorrente e as suas causas e mecanismos foram perfeitamente analisados mais uma vez por Marx, em combinação com a descoberta da extrema alienação dos economistas vulgares (“dinheiro faz dinheiro”, sem passar por produção). Os economistas convencionais sempre desconsiderarão a possibilidade de alienação da sua gama de reflexões. São eles os dos agentes da bolsa de valores? Sabemos que a melhor estratégia é a da ovelha que segue o fluxo geral e que essa prática aumenta o ângulo de atuação. A sociedade como imaginado pelos economistas vulgares, inevitavelmente, chegou a um ponto em que se encontra submersa num oceano de antecipações, porque foi reduzida a uma soma de indivíduos. O que não passa de uma expressão ideológica no sentido negativo, embora perfeitamente funcional para legitimar a prática real do capital dominante. Os economistas vulgares que acreditam estar fazendo um trabalho científico nem sequer o sabem. Não conseguem entender que para fazer um trabalho científico e chegar mais próximo da compreensão da realidade objetiva, precisam começar com uma crítica radical da base inicial de seu raciocínio. Os economistas convencionais não são pensadores críticos. Na melhor das hipóteses podem ser “tecnocratas”, “executivos”, ou seja, agentes de execução a serviço do capital, hoje transformado em oligopólios. É por isso que suas “críticas” ao sistema foram sempre marginais e a maioria das propostas de reforma que acreditam ser “realistas” são, na verdade, totalmente irrealistas. E quando a realidade não lhes convém, por qualquer razão moral ( “pobreza demais” ou mesmo “desigualdades demais”), eles inevitavelmente divagam com lisonja e sermão. Um best-seller escrito por um vencedor do Prêmio Nobel de Economia (estritamente reservado para os economistas vulgares) está, assim, fadado à mediocridade. O livro de Joseph Stiglitz pomposamente intitulado “Um Outro Mundo” é um bom exemplo. Stiglitz “descobriu” em 2002 que o Consenso de Washington não foi uma coisa boa descobriu o comportamento real do FMI, da OMC, etc Mais de metade do volumoso livro de 550 páginas se vangloria de “revelações” já conhecidas por outros há 30 ou 40 anos! Stiglitz acredita que ser o primeiro a dizer o que disse porque num leu os trabalhos dos pensadores críticos (e provavelmente nunca os lerá). Nem é por arrogância e sim por pura ignorância. Aqui está um exemplo engraçado: Stiglitz “descobriu” que, em 1990, alguns oligopólios chegaram a um acordo sobre alguns preços. Excelente! E o que ele propõe para restaurar a “concorrência”: uma lei “antitruste” e recurso aos tribunais bem no estilo americano! No livro publicado em 2002, Stiglitz ignorou a financialização; quase não a mencionou, julgando-a inofensiva e até útil … O trabalho extraordinário de Giovanni Arrighi sobre financialização como o estágio final de hegemonias em declínio foi totalmente ignorado. … Claro, Stiglitz foi surpreendido pelo colapso financeiro de 2008 e seu livro nunca nem mencionou a gravidade da ameaça. E, no entanto, na mesma época, outros (inclusive eu) haviam classificado o sistema liberal globalizado como instável por natureza e fadado ao colapso com sua crise financeira (o calcanhar de Aquiles do sistema, como escrevi). Stiglitz, claro, não sabia nada a respeito. Só nos resta rir de sua ideia de “revelar ao mundo” as “deficiências” do sistema. Não é de surpreender que o que chamo de “Relatório de Stiglitz”, isto é, o relatório da Comissão designada pelo presidente atual da Assembléia Geral da ONU – Padre Miguel D’Escoto – mas, infelizmente, presidida por Stiglitz, que provavelmente impôs sua visão limitada dos problemas na elaboração do documento final – não se arriscou para além da ortodoxia reacionária convencional. (10) Na verdade, vejo o “fracasso” resultante – o fato de os países do Sul renunciarem à representação na Assembléia por autoridades qualificadas – como um sinal positivo. Sugere que os países do cone sul tinham entendido que o relatório – com a pretensão de “consenso global” e… realismo – era uma adesão à estratégia do norte de “resposta à crise” e que suas propostas seriam provavelmente “aceitáveis” para os oligopólios. Será que isso vai mudar o mundo? Faça-me um favor! 5. Militarização da globalização, “ajuda”, pós-modernismo Para manter o seu monopólio de renda garantido, os oligopólios não se contentam apenas com a drenagem de suas próprias “economias nacionais”. Dada a sua dimensão global, podem até mesmo drenar mais das economias dominadas, emergentes e das periferias marginalizadas. A pilhagem dos recursos do planeta e exploração do trabalhador fornece o material para que o imperialista garanta sua renda, que por sua vez, constitui a condição de um consenso social que já é realidade nas opulentas sociedades do Norte. Os discursos sobre democracia e ecologia estão servindo como papel de embrulho para dissimular os verdadeiros objetivos. A economia vulgar constitui o cerne da ideologia do capitalismo e deveria ter sido conhecido desde a “Crítica da Economia Política” (sob o título de Capital de Marx). Porque envolve uma “não-realidade” (mercados generalizados), a construção da economia vulgar não merece ser descrita como científica como somos levados a acreditar. Sua verdadeira função social é semelhante ao da bruxaria na antiguidade. Como esta, recorre a uma linguagem incompreensível para o cidadão comum, anulando seu poder de decisão, e então entrega potenciais “verdades” “objetivas”. Em contraponto, a linguagem do pensamento social genuíno sempre foi clara como na obra de Marx, mesmo quando complicada, pois buscava educar os cidadãos. Derrotar o controle militar do planeta pelos imperialistas O verdadeiro desafio enfrentado pelas populações é, em primeiro lugar, a militarização da globalização, pois o controle militar do planeta pelos Estados Unidos e seus aliados subordinados (OTAN e Japão) se tornou a única arma de último recurso para a renda garantida imperialista sem a qual o sistema não pode sobreviver. “Império do caos”, como venho descrevendo o sistema desde 1991 e guerra permanente contra os povos do Sul são sinônimos. É por isso que derrotar as forças armadas da tríade, forçando os Estados Unidos a abandonar as suas bases implantadas em todos os continentes, o desmantelamento da OTAN devem ser os principais objetivos estratégicos das forças democráticas progressistas no Norte e no Sul. (11) É provavelmente o objetivo do “Grupo de Xangai”, que se empenhou em reviver o espírito de “não-alinhamento” para ser agora definido como “não-alinhamento com a globalização imperialista e do projeto da tríade política e militar”. Sugeriria aqui uma comparação com a história de Bandoung. Mesmo antes da Conferência de mesmo nome, (1955) e “não-alinhamento” (1960), grupos de reflexão radical surgiram para propor aos Estados da Ásia e África contra-estratégias de luta possíveis e eficazes que forçarão o imperialismo daquela era fazer a recuar. O autor dessas linhas teve a honra de ser membro de um desses grupos para o Oriente Médio desde 1950. Hoje, iniciativas semelhantes são absolutamente necessárias. “Ajuda”, uma ferramenta adicional para controlar os países vulneráveis “A ajuda internacional”, descrita como algo essencial para a sobrevivência dos “países menos desenvolvidos” (terminologia das Nações Unidas para designar países africanos e alguns outros) é relevante aqui, porque o verdadeiro objetivo do auxílio, que é destinado aos mais vulneráveis dos países periféricos, é erguer um obstáculo adicional à sua adesão a uma frente alternativa do Sul. Conceitos de ajuda foram bem estruturados; sua arquitetura foi definida na Declaração de Paris sobre a Eficácia da Ajuda (2005), um documento escrito pela OCDE e, mais tarde imposto aos países beneficiários. As condições gerais definidas por um alinhamento com os princípios da globalização liberal é onipresente. Em algumas passagens fica explicitamente expresso como quando diz favorecer a liberalização, a abertura dos mercados, para se tornarem “atraentes” para investimentos estrangeiros privados. Em outras, é uma declaração indireta, como o respeito pelas regras da OMC. Portanto, qualquer país que se recuse a aderir a esta estratégia unilateralmente definida pelo “Norte” (Tríade) perde o direito à ajuda. Sob essa perspectiva, a Declaração de Paris é uma regressão – e não um progresso – em relação às práticas de “décadas de desenvolvimento” (1960-1970) quando o princípio da livre escolha por parte dos países do Sul de seus sistemas e de suas políticas econômicas e sociais era possível. Sob tais condições, as políticas de ajuda e seu aparente objetivo imediato são indissociáveis dos objetivo geopolíticos do imperialismo. Obviamente, as diferentes regiões do planeta não têm funções idênticas no sistema globalizado neoliberal. Portanto, não é suficiente para indicar o que constitui o seu denominador comum (liberalização do comércio, abertura aos fluxos financeiros, privatizações etc). A África Subsaariana está perfeitamente integrada no sistema global e de forma alguma “marginalizada”, como muitos, infelizmente, especulam sem considerar que: o comércio externo da região representa 45% do seu PIB, contra 30% para a Ásia e América do Sul e 15% para cada uma das três regiões que compõem a tríade. Quantitativamente, portanto, a África é “mais” e não “menos” integrada, mas de uma maneira diferente. A geo-economia da região baseia-se em dois conjuntos de produções que são determinantes na definição das suas estruturas e definição de sua posição no sistema mundial: (i) “tropical” das exportações agrícolas: café, cacau, algodão, amendoim, frutas, óleo de palma etc (ii) hidrocarbonetos e mineração: cobre, ouro, metais preciosos, diamante etc. Aquele garante meios de “sobrevivência” mais do que os alimentos produzidos para consumo próprio por parte dos agricultores que estão financiando a corrupção do Estado sobre a economia local e também a reprodução da “classe média” através da despesa pública. As classes dominantes locais estão mais interessadas nessas produções do que as economias dominantes. Estas estão muito mais interessadas no produto dos recursos naturais do continente. O interesse hoje é em hidrocarbonetos e minerais raros e amanhã pode muito bem ser em reservas para o desenvolvimento do agro combustível, o sol (quando o transporte de longa distância da energia solar for possível nas próximas décadas), a água (quando for possível sua exportação direta ou indireta). A corrida para garantir territórios rurais, que podem acomodar a expansão dos agrocombustíveis já começou na América do Sul. A partir dessa perspectiva, a África oferece vastas possibilidades. Malgaxe inflamou o movimento e já admitiram grandes áreas de terras na parte ocidental do país. A implementação do Código Rural Congolês (2008), inspirada na cooperação belga e na FAO irá certamente permitir que o agronegócio consiga garantir terras agrárias em grande escala com o objetivo de “desenvolvê-las”, da mesma forma que Código de Mineração tinha permitido o saqueio dos recursos minerais da colônia no passado. Os agricultores inútil vão pagar o preço; seu previsível empobrecimento extremo talvez atraia o interesse de ajuda humanitária futura e “ajude” os programas de redução da pobreza! Na década de 1970, me deparei com um sonho colonial antigo para o Sahel, que consistia em expulsar a população (os inúteis sahelianos) e substituí-los por fazendas de pecuária extensiva para a exportação (no estilo texano). A nova fase da história que acaba de começar é caracterizada por conflitos potencializados para o acesso aos recursos naturais do planeta. A tríade pretende ter acesso exclusivo ao “útil” da África (reservas de recursos naturais) e evitar que os países “emergentes”, cujas necessidades nessa área já estão oprimindo e vão aumentar cada vez mais, de ter acesso. A garantia do acesso exclusivo exige o controle político e a redução a vulnerabilidade Estados Africanos para “Estados clientes”. Portanto, não é errado considerar que o objetivo da ajuda é “corromper” as classes dominantes. Além das imposições financeiras (infelizmente amplamente conhecidas, embora, geralmente, tratadas como se os doadores não participassem delas!), a ajuda dirime essa função política que se tornou “essencial” (desde que se tornou uma importante fonte de financiamento do orçamento). É então necessário conceber ajuda para ser permanente e não para preparar para o seu desaparecimento através de um desenvolvimento consistente. Também importante é o fato de que esta ajuda não deve ser exclusiva e integralmente reservada às classes dominantes, o “governo”. Deve também despertar o interesse das “oposições” capazes de sucedê-los. Neste ponto, o papel da chamada sociedade civil e algumas ONGs se torna relevante. Para ser realmente eficiente politicamente, o auxílio em questão também deve contribuir para manter a integração do agricultor neste sistema global, visto que essa integração alimenta uma fonte adicional de receita do governo. Portanto “ajuda” deve também estar interessada no progresso, na “modernização” das culturas de exportação. A crítica de direita do produto da ajuda a partir da ideia de que cabe aos países interessados acabar com essa dependência através da abertura de mais capital estrangeiro. No essencial, esse é o que está por trás do discurso de Sarkozy, em Dakar, e de Obama, em Acra. É uma oratória usada para dissimular a verdadeira questão. Auxílio como parte integrante da estratégia imperialista, que visa, na realidade, marginalizar as populações inúteis dos povos africanos, para que os recursos da África possam ser mais facilmente usurpados! A “crítica” ingênua esquerdista compartilhada por muitas ONGs é fazer como se fosse possível acreditar nas promessas dos “doadores”. Esta crítica se limita a discursos inúteis de “capacidade de absorção”, “desempenho”, “boa governança” promovidos pela “sociedade civil”. Clama por “mais” e “melhor” ajuda!! Em contraponto, o discurso radical se respalda na perspectiva do desenvolvimento auto-centrado. A ajuda, como se pode imaginar nessa estrutura, advém da lógica da solidariedade internacional entre os povos frente ao cosmopolitismo capital. A pobreza, a sociedade civil, a boa governança: a retórica pobre do discurso dominante Trata-se de um objetivo supostamente auto-atribuído do discurso dominante de “reduzir ou mesmo erradicar a pobreza”, invocando a “sociedade civil” a substituir um governo “ruim” por uma boa proposta. O próprio termo “pobreza” pertence a uma linguagem tão antiga quanto o mundo, a linguagem da caridade (de origem religiosa ou outras). Essa linguagem pertence ao passado, não ao presente e certamente não ao futuro. Ela precede a formação de uma linguagem desenvolvida pelo pensamento social moderno, que pretende ser científica, isto é, pela descoberta dos mecanismos que geram um fenômeno observável e observado. A literatura maciça sobre a pobreza exclusivamente – ou quase – coloca o foco no “identificar” o fenômeno e quantificá-lo. Não fazer algumas perguntas como: quais são os mecanismos que geram a pobreza em questão? Podem estar relacionados às regras fundamentais (como a concorrência) na base dos nossos sistemas? E, em particular, sobre os países beneficiários do Sul, as estratégias e políticas de desenvolvimento foram concebidas para eles? Mesmo levado a sério (portanto, com vista para o seu uso abusivo), será que o conceito de “sociedade civil” tem a elevação necessária para um conceito ser considerado num debate sério e científico? Como nos foi proposta, “a sociedade civil” em questão está associada a uma ideologia de consenso. Um consenso duplo: (i) que não há alternativa à economia de mercado “(expressão para servir como um substituto para a análise do “capitalismo realmente existente” antigo e contemporâneo), (ii) que não existe alternativa à democracia representativa fundada no sistema multipartidário eleitoral (concebido como “democracia”), para servir como um substituto para o conceito de democratização da sociedade que por si só é um processo interminável. Em contraponto, as lutas na história têm permitido a emergência de culturas de conflito político fundado sobre o reconhecimento de conflitos de interesses sociais e nacionais, dando-se, nomeadamente, algum significado dos termos “direita” e “esquerda”, pelo qual o direito e o poder para imaginar alternativas e não exclusivamente “alternâncias” no exercício do poder (mudança de nomes para fazer a mesma coisa) é conferido à democracia criativa. “Governança” é uma invenção para substituir o “poder”. A oposição entre os dois adjetivos – a boa ou má governança – é uma reminiscência de maniqueísmo e moralismo substituídos pela análise da realidade o mais cientificamente possível. Mais uma vez, essa moda veio dos EUA, onde o sermão tem frequentemente dominado o discurso político. A “boa governança” implica que o “tomador de decisão” seja “justo”,”objetivo”(escolha a “melhor solução”),”neutro” (aceitando a apresentação de argumentos simétricos), e ainda por cima “honesto” (claro no sentido mais financeiro do termo). Ao ler a literatura produzida pelo Banco Mundial sobre o assunto é como uma releitura das queixas apresentadas – em geral, por religiosos e / ou a lei dos homens (poucas mulheres!) – ao “déspota justo” (nem mesmo iluminado!) nos tempos antigos do Oriente. A ideologia visível por trás disso é simplesmente a de tentar ignorar o problema real: que interesses sociais são representados ou defendidos pelo regime em questão? Como a transformação do poder pode avançar, para gradualmente tornar-se instrumento das maiorias, em particular, das vítimas do sistema? Dado que a receita pluripartidária eleitoral mostrou limitações nesse aspecto. Discurso “pós-modernista” O discurso pós-modernista conclui o discurso intitulado por alguns como “novo espírito do capitalismo”, mas que seria melhor descrito como a ideologia do capitalismo tardio / imperialismo dos oligopólios. Gostaria de remeter o leitor ao livro de Nkolo Foe (Le Post modernisme; Codesria 2009) que estabeleceu a base perfeitamente funcional destinada a servir os reais interesses das forças dominantes . O modernismo foi inaugurado pelo discurso do Iluminismo europeu no século XVIII, em paralelo com o triunfo da forma histórica do capitalismo europeu e o imperialismo, este consubstancial e aquele conquistando o mundo. Transmite suas contradições e limitações. O desejo de universalismo que se formula é definido pela afirmação dos direitos humanos (não necessariamente das mulheres) que, em substância, são os do individualismo burguês. Além disso, o capitalismo real com que esta forma de modernidade está associada, é um imperialismo que nega direitos similares para povos não-europeus conquistados e submetidos às exigências para a produção de renda imperialista garantida para o benefício dos oligopólios. A crítica dessa modernidade burguesa e capitalista / imperialista é certamente necessária. E Marx tinha realmente se engajado nessa crítica radical que sempre deverá ser atualizada e aprofundada. A nova razão queria ser emancipadora, e foi na medida em que libertou a sociedade da alienação e opressão dos regimes de idade e, como tal, constitui uma garantia para o progresso, mais precisamente uma forma de progresso limitado e contraditório, porque, em última análise, é a razão de uma sociedade gerida pelo capital. O pós-modernismo não propõe nenhuma crítica radical que levaria à emancipação do indivíduo e da sociedade. Em vez disso, sua proposta é retornar às alienações pré-modernas e pré-capitalistas. Assim, as formas de sociabilidade que tenta promover estão fadadas à consonância com a adesão da “identidade tribalista” (para-religiosa ou para-étnica) de comunidades nos extremos opostos do que é necessário para aprofundar a democracia, que se tornou sinônimo de “tiranização dos povos” que se atreverem a questionar a gestão sábia dos executivos a serviço dos oligopólios. As críticas levantadas contra os “grandes discursos” (iluminismo, democracia, progresso, socialismo, libertação nacional) não são orientadas para o futuro, em vez disso, olham para um passado imaginário, falso e idealizado. A extrema fragmentação das maiorias populares, portanto, tem sido facilitada, fazendo-as aceitar a lógica de reprodução da dominação dos oligopólios e do imperialismo. A fragmentação não impede a dominação, tornando-a ainda mais fácil. Longe de ser um agente consciente e lúcido de transformação social, o indivíduo em questão é escravo da mercantilização triunfante. O cidadão se rende a ser um consumidor / espectador. Já não é um cidadão que anseia a emancipação, tornou-se um ser apático que aceita a submissão.
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