| “Brasil e Espanha: de relações cordiais a aliança estratégica” |
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por Rodrigo LimaDe Igual a Igual, em exclusiva, entrevistou José Manuel Santos, professor do departamento de História Medieval, Moderna e Contemporânea da Univesidad de Salamanca, bem como o diretor do Centro de Estudos Brasileiros da mesma Universidade, desde a sua fundação em 2001. Nessa entrevista, José Manuel faz uma avaliação do Centro, que comemora 5 anos, explica seu funcionamento, destaca o importante papel da Fundação Cultural Hispano-Brasileira e comenta as relações bilaterais entre os dois países, que deixaram de ter apenas relações cordiais para formar uma aliança estratégica. Por que o seu interesse pessoal pelo Brasil? Quando e como surgiu? Sou pesquisador da América colonial, muito interessado na colonização portuguesa na América, bem como a época holandesa no Brasil. Em 1996 foi criada a disciplina de História do Brasil aqui na Universidade de Salamanca (de aqui em diante, “Universidade”), que assumi. Depois, aumentou o interesse pelo Brasil, com mais atividades, mais estudantes. Houve interesse da Embaixada brasileira na Espanha (de aqui em diante, “Embaixada”) para criar um Centro de Estudos Brasileiros (CEB). Atendi um convite do então reitor, prof. Ignacio Berdugo para criar e dirigir o Centro. Assim, a meu interesse particular, somou-se o interesse instucional do CEB. Qual a função principal do Centro de Estudos brasileiros? Como surgiu? A Embaixada em 2001 tinha muito interesse em criar um centro para estudos sobre o Brasil. Era um momento em que a Espanha, as empresas espanholas estavam realizando um investimento muito grande no Brasil. E a Embaixada pensava que a Espanha não tinha muito conhecimento sobre o Brasil, apesar do interesse econômico. A Embaixada escolheu Salamanca pois a Universidade sempre teve relações privilegiadas com a América Latina. A Embaixada contactou a reitoria, que pronto atndeu o chamado. O Centro, um lugar para estimular a pesquisa sobre o Brasil, foi criado ao mesmo tempo em que a Fundação Cultural Hispano-Brasileira, pois a Universidade tem recursos econômicos limitados e a Fundação concentra o apoio da iniciativa privada, fiundmentalmente das empresas que investem no Brasil. A Universidade cobre os gastos de manutenção do Centro, ao passo em que a Fundação financia os eventos que promovemos, como congressos, seminários, exposições, publicação de livros. Assim, o Centro trabalha tanto a pesquisa sobre o Brasil como sua divulgação cultural aqui na Espanha. O Centro acaba de completar 5 anos. Qual é a sua avaliação desse período? Se pensamos no que tínhamos em 2001 (e temos que pensar assim), e comparamos com o que temos agora, a avaliação, lógico, é muito positiva. O mais importante é que a Universidade tem um “espaço Brasil” já constituído e conhecido, uma referência. Só dois países têm uma condição especial para a Universidade: o Japão e o Brasil, o que deixa claro que a Universidade aposta por essa relação específica. Mas isso foi conquistado. Quando começamos, quem sabia algo do Brasil? Antes só se pensava na América Latina como um todo, mas acho isso errado, pois a América Latina é um conceito vago. Não se pode comparar o Brasil com a Bolívia, pois são realidades totalmente diferentes. Eu tenho até dificuldade para entender o Brasil como uma unidade, pois o país é tão grande; na verdade são vários Brasis. Os problemas do Sul e Sudeste são diferentes dos do Nordeste. Não se pode pensar a América Latina de uma maneira tão simplista. Ter em 5 anos um Centro consolidado, ter estudantes de diversas áreas fazendo teses sobre o Brasil (o que não podíamosd sequer imaginar em 2001), as disciplinas criadas nesse período, os 5 colóquios internacionais que organizamos. Mais de 1.500 estudantes já participaram de alguma atividade sobre o Brasil. Sem contar as pessoas que visitaram as diversas exposições. Tudo isso é muito importante. Mas nem tudo é perfeito. Ainda há muito o que fazer. O ponto mensos desenvolvido foi o Centro de documentação, que para mim era desde o início uma das idéias fortes desse Centro. Não se pode estimular a pesquisa sem material. É possível que tenhamos o mais importante acervo bibliográfico sobre o Brasil na Espanha, mas ele está espalhado nas diversas bibliotecas da Universidade. E por isso não há a idéia de que realmente temos esse acervo. Temos que fazer um esforço maior para reunir e fazer a gestão desse material. É necessário pessoas com conhecimento de português e do Brasil para ajudar os pesquisadores. O Ministério da Cultura do Brasil ajudou muito, pois doou em 2003 o Projeto Resgate, 256 Cds com 3.000.000 milhões de páginas digitalizadas do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa. Por exemplo, temos a tese do doutorando George Félix Cabral, bolsista da CAPES, a ser defenfida em um mês, sobre a Câmara do Recife no século XVIII. A documentação que ele utilizou foi a que temos aqui, além do material que ele trouxe do Brasil. É um exemplo do que pode ser feito aqui. O fato de não termos uma sede definitiva atrapalhou nesse sentido. Já há uma previsão para a rebilitação do Palácio Maldonado (sede definitiva do Centro e da Fundação)? O palácio Maldonado foi definido como sede em 2001. Estamos esperando há 5 anos. Só agora, com apoio do Reitor, da Embaixada, do Preseidente Lula, foi feito o convênio, quando da visita de Lula a Salamanca na Cúpula Ibero-americana de outubro de 2005. Esse foi o início do fim. Foi assinado convênio com a Junta de Castela e Leão, que vai pagar 50%, a Fundação, 25%, e a Universidade também vai dar uma contribuição. Agora temos uma eleição a reitor, mas tenho certeza de que quem ganhar continuará apoiando o Centro. Então O CEB é um projeto institucional da Universidade, e não apenas um projeto pessoal de um ou outro reitor... Esse projeto nasceu da parceria institucional da Universidade, mas também da Embaixada. Tanto os reitores Ignacio Berdugo quanto Battaner sempre apoiaram o Centro. É muito claro que esse Centro é uma referência e que as relações privilegiadas da Universidade com o Brasil vai continuar. Você acha que o Brasil está “na moda” aqui na Espanha? Eu acho que já esteve. Em 2002, com a Copa do Mundo, com o sucesso de Carlinhos Brown, o lançamento do Guaraná, novos vôos para o Brasil com a Air Europa. Continuou em 2003. Mas essas coisas vão e vêm. Depois dessa febre, temos talvez uma consideração diferente do Brasil na Espanha. Deixou de ser um país exótico, só carnaval. Cada vez mais as pessoas na Espanha entendem o país como uma potência econômica, demográfica. Já se pensa que aprender português é importante. Mais que um país “na moda”, o Brasil é visto como um país atrativo para o turismo. Tenho encontrado cada vez mais espanhóis em minhas viagens ao Brasil. Deixamos de ver o Brasil como um lugar exótico. No Brasil também há uma idéia errada da Espanha. Ainda se pensa no Brasil na Espanha franquista, sem uma idéia clara do avanço espanhol nos últimos anos. Isso porque apesar da idéia de Iberoamérica, havia uma relação muito distante. Como estão as relações bilaterais entre Brasil e Espanha? Até 2000, a Espanha não era um país importante para o Brasil. Do ponto de vista cultural-acadêmico, esse país era a França. Brasil e Espanha passarem de ter relações cordiais a formar uma aliança estratégica. O Brasil tem um interlocutor mais importante na União Européia, mais que Portugal. O interlocutor natural do Brasil é Portugal, mas tem um papel menor que o espanhol dentro da Europa. O Brasil sempre teve relações culturais com a França, que tembém tem interesse no Brasil. Que país pode não estar interessado no Brasil, um país de 200 milhões de habitantes? Mas acho que a França não soube aproveitar o interesse brasileiro. O fato de as escolas brasileiras serem obrigadas a oferecer o espanhol. O espanhol deve aprender português, não apenas inglês. Não se pode pensar em uma aliança estratégica sem falarmos portugês. Português e espanhol são idiomas semelhantes, mas não são o mesmo idioma. E Salamanca é uma cidade muito boa para isso. Que fatores contribuiram para esse incremento nas relações bilaterais? O interesse foi mútuo. De um lado o excedente de capital espanhol daquele momento. Banco Santander e Telefônica encontraram no Brasil um excelente campo de investimento. E, por outro lado, o Brasil necessitava de um parceiro com maior peso estratégico dentro da União Européia. O Brasil é o líder natural da América Latina, com quse 40% do PIB da região, grande população. Outro país importante, o México, tem 80% de seu comérico exterior com os Estados Unidos, o que dificulta sua capacidae de negociação. O Brasil tem seu comércio exterior mais diversificado. A União Européia é muito importante, e o Brasil precisa de um país que seja a sua voz no continente. Apesar de que em casos como os subsídios agrícolas, nem Portugal, Espanha e nem a França apoiaram o Brasil. Mas em algum momento isso vai ter que acabar. Acaba de publicar o livro “A Amazônia Brasileira em perspectiva histórica”, editado em conjunto com Pere Petit Peñarrocha (Universidade Federal do Pará) e “Antes do vendaval: um diganóstico do governo Lula antes da crise política de 2005”, com Márcia Ribeiro Dias. Fazem parte do projeto geral de publicações que tem o CEB, em parceria com a editora da Universidade e outros paceiros no Brasil e na Espanha. São textos dos trabalhos que foram apresentados em eventos que promovemos em 2004 e em 2005, junto com professores visitantes, através de um convênio que temos com o CNPq, com a prof. Márcia Ribeiro Dias, da PUC-RS, foi organizado o seminário “A esperança venceu o medo?”, para analisar os dois primeiros anos do governo Lula, em fevereiro de 2005, antes da crise política, o que atrapalhou a publicação do livro. Faremos o segundo projeto: “Depois do vendaval”, para explicar em profundidade por que Lula foi reeleito. O livro “A Amazônia Brasileira em perspectiva histórica” é uma coletânea de artigos de professores da Universidade Federal do Pará e também os trabalhos apresentados em outro evento organizado por professores visitantes em junho de 2004. Esse seminário teve apoio do CNPq. Foram 2 semanas de seminário, e é a primeira publicação sobre a história da Amazônia aqui na Espanha, graças ao apoio também da Fundação Cultural Hispano-Brasileira e da Universidade Federal do Pará. Estão aí os livros e convido as pessoas a lê-los, pois são livros interessantes. O livro “Antes do vendaval” saiu no Brasil em português com a editora da PUC-RS, e já se encontra à venda nas livrarias brasileiras, pois tem uma distribuição importante. O outro saiu em espanhol com apoio da editora da Universidade de Salamanca e já está nas livrarias na Espanha.
“ ” "Depois dessa febre, temos talvez uma consideração diferente do Brasil na Espanha. Deixou de ser um país exótico, só carnaval. Cada vez mais as pessoas na Espanha entendem o país como uma potência econômica, demográfica".
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por Rodrigo Lima
































