Uma andorinha só não faz verão PDF Print E-mail
por Najar Tubino en VíaPolítica.com.br

É o nome da campanha, no sentido de organização, que o movimento gaúcho ambientalista, reunindo dezenas de entidades, ONGs e sindicatos, está promovendo, no Semapi – Sindicato dos Técnicos Científicos das Fundações –, em Porto Alegre, semanalmente. É uma iniciativa silenciosa, que tem por objetivo comum a preservação do ambiente gaúcho, principalmente o pampa, bioma atingido em cheio pela monocultura do eucalipto. E, é óbvio, pelo rolo compressor das papeleiras.

A cada mês, o grupo realiza um seminário. Na última semana, os convidados eram o geólogo Roberto Krichhein, que trabalhou três anos no projeto do Aqüífero Guarani pela Organização dos Estados Americanos (OEA). Ele falou sobre a quantidade de água no subsolo rio-grandense e, por extensão, em parte da América do Sul.

O aqüífero está distribuído por oito estados brasileiros, iniciando no Mato Grosso do Sul, até o Rio Grande do Sul, parte do Uruguai, Argentina e Paraguai. Em território gaúcho, em especial na região da metade sul – a famosa porção “favelada” –, onde a água aflora, o aqüífero é recarregado. Não existe nenhum estudo sobre o consumo de água nos projetos de lavouras do eucalipto. Não é preciso ser especialista para saber que uma árvore que cresce rápido, consome muita água.

Milhões de tocos

Também falou o professor e biólogo, Ludwig Buckup, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), do alto da sua experiência de quase 50 anos de trabalho. O pampa é uma região com mais de três mil espécies de plantas, a maioria gramíneas e pequenos arbustos, em função da qualidade e das condições do solo. Foi assim que sobreviveu nos últimos 12 mil anos. Na realidade, comentou Buckup, ninguém sabe as conseqüências, o impacto que uma monocultura com um milhão de hectares de árvores de porte causará na região.

Buckup preocupou-se porque registrou o fato da Secretaria de Irrigação do governo estadual estabelecer um convênio com as papeleiras. Será que estão vislumbrando a futura irrigação das lavouras? O geólogo salientou em sua palestra que o consumo da água no arroz gaúcho é elevadíssimo, em torno de 90%, um índice muito alto, mesmo na comparação com culturas irrigadas no mundo.

O fato mais interessante questionado pelo professor Buckup é o seguinte: calcula-se um número de 1.700 plantas por hectare numa lavoura de eucalipto. O desenvolvimento da árvore, até o ponto de corte, estende-se por sete anos, os contratos firmados com os proprietários têm duração de 14 anos, ou seja, duas safras. Pagarão sempre o preço de mercado pelas terras. Da colheita, restam os tocos. Em 14 anos, exatamente 3.400 tocos em um hectare, pois o segundo plantio ocorre no meio das primeiras plantas cortadas. Aí ele pergunta: vamos multiplicar por um milhão de hectares. O que acontecerá com este solo, depois? Buckup relatou uma possível solução dada por uma funcionária da Aracruz, em um seminário público: “Estamos desenvolvendo uma furadeira, para ajudar na decomposição dos tocos, e desta forma, poderemos usar um dessecante...”

Queda no preço

Muito criativo o processo. Na mesma reunião também falou um representante dos 64 assentamentos existentes no Rio Grande do Sul. Ele vem da região de Hulha Negra, perto de Bagé, onde a Votorantim delimitou a sua área de atuação – comprou 68 fazendas. E influiu negativamente na venda de terras disponíveis à reforma agrária. Em Hulha Negra, funciona há 10 anos a Cooperativa Agroecológia Nacional Terra e Vida Ltda. (Coonatura), que detém a marca Bionatur. Ela comercializa 18 toneladas de sementes – hortigranjeiros na maioria –, produzidas sem agroquímicos, em um projeto que envolve 300 famílias e 25 assentamentos. É o oposto do projeto de bilhões de dólares que, tanto as papeleiras como o governo estadual e o séquito de aderentes, vivem vociferando pelos cantos.

Nesse ponto, o professor Buckup, um homem relacionado no mundo inteiro, deu um alerta. Numa troca de informações com colegas de Sidney, a capital da Austrália, sobre os plantios de eucalipto na região do Cone Sul, observou: “Os australianos estão preocupados por um motivo. Lá se planta de uma forma comercial – o eucalipto é originário da Austrália –, na região sudoeste, entre Adelaide e Melbourne. A madeira é vendida para os chineses e sul-coreanos, maiores produtores de celulose. Com o crescimento da produção, nas novas fábricas em implantação no Chile, Uruguai, Argentina e Brasil, a tendência é de queda nos preços da pasta de celulose no mercado mundial”.

Para um projeto de longo prazo, não é uma boa notícia. Lembrei de um caso parecido. As criações de frangos e suínos usam a integração com produtores como sistema de produção. O sujeito não é empregado, faz um contrato. Quando caem os preços, a indústria reduz os pedidos. Quando muda o mercado, as granjas precisam modernizar-se, como aconteceu há alguns anos atrás. O produtor, então, tem duas opções: ou investe, ou está fora. Fizeram isso em Santa Catarina, para “integrados” com 25 anos de trabalho.

Querem porque querem

Os encontros no Semapi, que ocorrem todas as terças, às 17h, continuarão. Pelo visto, ninguém tem uma fórmula pronta para enfrentar o rolo compressor. Por enquanto, as andorinhas estão se agrupando. No próximo dia 21 de julho, às 9h, estarão na Assembléia Legislativa, no seminário sobre a redução da faixa de fronteiras, convocado pela Comissão Legislativa Participativa, do Congresso Nacional. Uma transnacional, no caso a Stora Enso (norueguesa-filandesa), presente em 40 países, já comprou milhares de hectares na região da fronteira Oeste. A confirmação da propriedade precisa de aprovação do INCRA e do Conselho Nacional de Segurança. Porém, alguns políticos pretendem atalhar o processo: diminuindo a faixa de 150, para 50, ou 10 km como quer um deles. Não tem outro motivo, a não ser atender aos interesses dos prefeitos da região, que querem porque querem o eucalipto nas suas áreas, embora os respectivos estejam em final de mandato.

Para completar o programa em Porto Alegre, no dia 26 de julho, na Feira Ecológica do Bom Fim (rua José Bonifácio), a Cooperativa dos Produtores Ecológicos de POA (Arco-íris), às 9h, promove o lançamento do livro Transgênicos, as Sementes do Mal – a silenciosa contaminação dos solos e dos alimentos, de autoria do agrônomo gaúcho Antônio Inácio Andrioli e do alemão Richard Fuchs. Haverá sessão de autógrafos, na segunda quadra, em torno da banca 61.


*Najar Tubino é jornalista, colaborador de ViaPolítica e autor do livro O Equilíbrio. Nos últimos anos tem se especializado em questões relativas ao meio ambiente, e atualmente divulga seu trabalho na palestra "Uma visão holística e atual sobre a integração do planeta".
 

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